no meu mundo...

Segunda-feira, Fevereiro 22, 2010

O ciclo termina e eis que recomeça. A derrota. A perda de algo que nunca foi meu. A lâmina afiada que trespassa a minha esperança, como se nada lá houvesse para matar. As lembranças de algo que, recheado de inocência e boa vontade, nada mais passaram do que meros reflexos de imaginação desponderada e livre. A pressão que os sentimentos fazem para sair de dentro de mim, a dor no peito que não é física mas que mesmo assim dói e entristece. Os caminhos que foram semeados, mas que acabaram por não mais brotar. No limiar do quase e do nada, permaneço, à espera, que um dos caminhos germine e dele brote a realidade imaginada. Permaneço assim a trilhar, sem escolha, um caminho escuro e tortuoso que me consome e me afasta de mim próprio e daquilo que anseio. Vejo, do interior da esfera pétrea e fria que é a minha realidade, os segundos, os minutos, as horas, os dias, os meses e os anos da minha vida percorridos num ciclo vicioso que começa e acaba em si mesmo, e que não me permite sequer esticar a mão para puder sentir o toque de outra realidade. O ciclo recomeçou.

Sábado, Maio 10, 2008

A luz alaranjada que penetrava pela persiana, acariciava cada contorno do seu belo corpo torneado, tornando a sua pele mais luminosa e vibrante. A mulher, deitada em cima dos lençóis brancos, assemelhava-se a um ser celestial, a dormir. Levantando ligeiramente as pálpebras, olhou na direcção do seu observador e um belo sorriso aflorou-se-lhe no rosto. Deitando-se ao lado da mulher, o homem agarrou-a pela cintura, abraçando-a docemente. Agora ambos envoltos na luz, os dois entregavam-se ao amor, presos num quadro que não era nem passado nem presente, mas sim um momento onde o tempo estava parado ou ausente. A face da mulher estava tão próxima da do homem, que ele podia ver os pequenos laivos castanhos que percorriam as íris azuis dos seus olhos ou sentir a suave fragrância que emanava dos seus cabelos. A doçura dos seus lábios a tocarem nos seus. O amor é o ar que se respira, as palavras que são faladas e os gestos que são tornados realidade. O homem fecha os olhos. E é quando os volta a abrir que se vê num quarto escuro e sem vida, e onde a única pessoa que lá se encontra é ele mesmo. Tomando consciência da realidade, o homem tapa a cara, vertendo lágrimas de mágoa e solidão. Embrenhando-se mais nos lençóis frios e gastos, suspira por aquela que outrora dormiu a seu lado e com a qual partilhava toda a sua vida. Tal como uma caixa vazia, a sua alma está ausente do seu corpo, que apenas vive e se move sem um propósito maior do que apenas sobreviver.


Quinta-feira, Novembro 29, 2007

Ela permanecia sentada no banco de jardim embora a chuva caísse cada vez mais impiedosa. Misturadas com a água que caía, as lágrimas da mulher rolavam ao longo da sua estreita face, acabando por cair no seu colo. Não era visível pessoa alguma no jardim ou nas ruas que o circundavam, nem mesmo o barulho dos carros enchia aquele fim de tarde. Com as suas roupas negras encharcadas, a mulher abraçava uma fotografia de um homem novo que sorria. Um trovão faz-se sentir ao longe e é então que uma mão pousa no seu ombro. A mulher pára subitamente de chorar, mas não olha para trás, apenas levantando a cabeça para a frente. O homem senta-se vagarosamente no banco de jardim, encostado a ela e sem nunca deixar de a olhar. O rosto do homem parecia cansado, triste e infinitamente em agonia. Passou os dedos suavemente pelos cabelos molhados dela e murmurou o seu nome. A mulher fechou os olhos e novas lágrimas desceram pelas suas faces, à medida que dizia o nome dele baixinho. Ele agarrou a mão dela.



- Aqui.

- Sozinha.

- Sozinho.

- Volta.

- Agarra a minha mão.

- Os meus pensamentos estão contigo.

- Porque não me ouves?

- Porquê?

- Quero gritar, quero a tua atenção. Porque não ouves o meu chamamento, se estou tão perto de ti? Porque ignoras as palavras de quem te ama?

- Porque me abandonas quando a única coisa que quero é estar junto a ti?



A mulher começa uma vez mais a chorar violentamente, amachucando a foto que tem no seu colo, foto essa de um homem igual ao que está sentado ao seu lado, mas com um rosto muito mais feliz e iluminado. O homem, com uma face ainda mais transtornada do que antes, larga o cabelo da mulher e coloca as suas duas mãos entre as pernas, com o rosto afundando-se no peito. A chuva aumenta de intensidade, assim como o barulho das gotas a tocar no que resta da foto amachucada. Ao longe, apenas se vislumbra através do cortinado de água, uma mulher com a cara escondida nas mãos, sentada num banco de jardim, sozinha.

Domingo, Novembro 18, 2007


Toda a tristeza do mundo encontrava-se gravada no seu rosto. Parecia morta à fraca luz da manhã que entrava pelas persianas levantadas. Apenas os seus olhos brilhavam, de um azul suave e cristalino. O homem entrou no quarto e lentamente aproximou-se da cama onde se encontrava a mulher. Apenas despertou dos seus pensamentos quando a sua mão foi pegada e apertada docemente. Uma doçura intensificada ao longo dos anos, cheia da essência dos dois e tornada única e insubstituível. Ela virou a cara e olhou demoradamente nos olhos do homem. Uma lágrima despontou,e depois outra, e depressa a mulher chorava intensamente. Confuso, o homem abraçou-a, tão forte era o aperto, que conseguia sentir o frio que emanava do corpo da mulher. Olhando para a pequena cómoda perto da cama, viu por fim a razão de todas as lágrimas. Perto de uma moldura onde a mulher sorria, um inocente frasco branco caído, entornava um punhado de pequenos comprimidos brancos pelo móvel. O homem abanou freneticamente a mulher para tentar compreender tal acção, acabando por abraça-la no final e chorando compulsivamente. Num derradeiro esforço para tentar salvar a mulher, o homem começou a gritar por ajuda, viesse ela donde viesse, divina ou meramente humana. Um pequeno dedo repousou nos lábios dele e os seus gritos cessaram. Os olhares que trocaram foram suficientes para ambos compreenderem o que estava destinado, e o homem ajoelhou-se ao lado da mulher, voltando a agarrar a sua mão com as suas. Um momento repleto de amor, e não de lágrimas ou tristeza, encheu a divisão e por breves momentos o casal esqueceu todo o presente e entregou-se um ao outro, como haviam feito no passado. Voltaram a olhar um para o outro intensamente e o seu olhar era de despedida. Abraçando-se, trocaram breves palavras de perdão e apertaram-se um ao outro como num derradeiro esforço para impedir o inevitável. "Eu amo-te" e não mais a mão dela correspondia à dele. O olhar profundo da mulher fitava agora o infinito. O pouco calor que residia no seu corpo havia desaparecido e o homem abraçava agora um ser imóvel e pálido. Os seus uivos de dor ecoaram pela casa, transformando-se em choro. O céu nublado lá fora, imergiu o quarto em sombra, ocultando parte da moldura onde a mulher sorria. O silêncio desceu no quarto, apenas interrompido pelo soluçar do homem agarrado à mulher morta.


Terça-feira, Agosto 21, 2007

Desolação. Cinzas. Num mundo com um sol moribundo, planícies e vales cinzentos insinuam-se à minha frente, tornando o horizonte triste e desprovido de vida. Cobertos com a mesma tonalidade, os meus pés enterram-se na aspereza daquilo que dá cor a esta realidade, deixando pegadas efémeras ao longo do caminho. Apenas a esperança impulsiona um andar sem rumo, em busca de algo que se mantem oculto e que me faz querer viver. O ar pobre e envenenado que me cerca, ganha subitamente uma velocidade enorme, tornando-se vento, quente e seco e mais tarde ardente e negro, arrastando as cinzas que antes pisei, meras memórias passadas agora dispersas no turbilhão que é a minha realidade. Elas embatem no meu corpo, queimando a pele onde velhas e novas cicatrizes residem como implacáveis marcas de outrora, quando o amor e a inocência, a bondade e a felicidade foram estropiados e despojados das suas virtudes e força. Olhando em redor, vejo que todo este mundo está a transformar-se perante mim, descobrindo aquilo que reside e sempre residiu abaixo destas cinzas e que é a essência da minha vida. Cores e brilhos nascem e brotam de todo o lado, e um vento agora doce e benigno, arrasta as memórias remanescentes para longe, trazendo um novo sopro que me acaricia a face e me faz inspirar vezes sem conta. Chuva molha o meu corpo, imaculando-o de qualquer traço de dor, enchendo o ar com o seu suave canto. A vida rodeia-me e traz consigo todo o esplendor que a preserverança manteve escondida mas presente no mais fundo cerne da existência. É neste verde mundo, aqui entre todos aqueles que eu amo, que encontro e sonho com aquilo que me faz feliz. Aqui, onde o sonho é sinónimo de realidade, eu repouso e recupero a força que me faz sobreviver lá fora, onde o sol se põe e o frio ocupa os corações. Aqui, onde a tristeza e o sofrimento não existem, aguardo pela momento em que as cinzas voltarão a cobrir o mundo, e onde a minha força será posta à prova uma vez mais. Neste ciclo sem fim que é a vida, onde as cicatrizes são mapa para o futuro, voltarei a desesperar e a encontrar o caminho, mesmo quando tudo à minha volta não passar de cinzas.



Segunda-feira, Agosto 20, 2007

"Escuta. Estás a senti-lo? É o bater do meu coração. As suas palpitações falam-te de amor, o seu frenesim a saudade que sabe que terá de ti. Pois não mais estarei cá para te puder dizer que te amo, mesmo tu sabendo que é verdade. Estarei aqui, ali, em todo o lado para te guardar, acompanhar, e sobretudo para nunca deixares de te sentir amada. Sempre que precisares eu estarei presente, para isso só tens que abrir a tua alma e coração, e escutares a Natureza, a Vida. Ela está em tudo e é dela que tudo provém. Escuta-a, como escutas hoje o meu coração, e não ouças as palavras de quem não tem ou já perdeu a sua capacidade de escutar, de amar... Saberás que sou a terra que acaricia a tua pele, a chuva que te molha e o sol que te aquece em seguida, serei todas as coisas que te confortam com o seu aroma e textura, que acompanham e enchem a tua vida de encanto. Para tudo aquilo que te abrires, eu estarei lá, a olhar para ti."

E assim ele deixou-a, da mesma forma que deixou o mundo. O que fora antes pernas era agora troncos, o que fora cabelo era agora folhagem. Os seus braços tornados ramos a apontar para o infinito, a sua voz tornada um suave murmúrio cantando ao vento. Uma magnificiente árvore nasceu onde um belo homem tinha trocado o último beijo em vida ao seu grande amor. E sozinha, ela chorou olhando para o céu, vertendo as lágrimas sobre o solo, molhando as raízes da bela árvore que jazia à sua frente.
Permanecendo imóvel durante o que pareceu eras, ela tornou-se vazia e desprovida de uma razão para continuar a viver. Quis o destino que a sua atenção fosse momentaneamente desviada por um súbito brilho ao seu redor, momento este curto mas desencadeador de todos os futuros acontecimentos da vida, e também da morte, dos dois amados. Olhando de relance à sua volta compreendeu o que brilhava à luz do sol: uma lâmina trabalhada e prateada. O punhal do homem que havia partido momentos antes. Todos os pensamentos se fixaram no objecto como uma salvação, uma solução, a única, para o sofrimento presente no coração agora vazio da mulher. Lenta, mas decididamente, ela encaminhou-se na sua direcção. Pegou-lhe trémula e apontou ao seu peito. "Um pequeno esforço e estarei junto dele. Tudo passará em breve e a dor deixará de ser sentida." Com um movimento rápido, a lâmina enterrou-se completamente, ficando apenas o cabo curvo a espreitar do peito da mulher. Escarlate irrompeu da ferida mortal aberta e alastrou-se pelo vestido branco, encharcando o solo aos seus pés . Perdendo a vida aos poucos, a mulher abraçou-se à árvore, da mesma forma que sempre havia abraçado o seu amado. No seu último suspiro sussurrou o nome do homem que amava. Sentiu uma suave e doce brisa à sua volta e então olhou para o céu. Com uma glória que concorria com o sol do meio-dia, a imagem do amado surgiu através das nuvens, esticando os braços para a receber uma vez mais no calor do seu aperto, enchendo-lhe o coração uma vez mais de amor. Ela sorriu e os seus olhos tornaram-se vidrados e sem vida. Morta, e ainda abraçada à árvore, quem quer que olhasse na sua direcção, veria apenas duas belas árvores, dois troncos entrelançados para a eternidade. Duas árvores, uma maior com as folhas agora escarlate, a cor do sangue derramado, e outra mais pequena, com uma abertura no meio do seu tronco, uma marca de sacríficio.

E foi quando estendeu os braços ao céu, que a sua vida começou. Aquelas mãos, aquele abraço que a envolvia, o calor que dele emanava deu-lhe toda a segurança e amor que ela sempre tinha necessitado. Lá alto, onde já nem as nuvens alcançavam o azul do céu, eles entregaram-se um ao outro.

- Parecem dois amantes.
- Achas? Parecem-me somente duas árvores.
- Já viste como estão entrelaçadas?
- E daí?
- Só um grande amor poderia unir dois seres desta forma!
- Não digas disparates, isso é impossível!
- Não são disparates criança - disse um homem velho por detrás dos jovens - E vou-te mostrar porquê. Vou-vos contar a história que vagueia neste lugar há muito tempo, tempo demais para ser relembrado por muitos...
"Estamos no tempo das lendas. As leis que regem o mundo hoje não são as mesmas de amanhã. E foi neste tempo que dois amantes se encontraram um ao outro..."

Segunda-feira, Outubro 16, 2006

O mundo era deles. Porque um mundo onde só existe o amor, é um mundo onde nós somos soberanos sobre qualquer coisa, qualquer um. Eram apenas uma alma, embora partilhada por dois corpos. A vida era boa e abençoada. Certo dia, a triste notícia de que o seu marido partiria para a guerra tornou a esposa desesperada em impedir tal acontecimento, temendo pela vida do seu amado. Mas era obrigação de todos os homens proteger a sua terra, o seu lar, e o marido era destemido e valoroso, atributos que o impeliram ainda mais para uma morte quase certa. Tristeza e receio instalou-se no coração dos amados, e custosa se tornou ainda mais a despedida de ambos. À medida que ele se afastava no seu possante cavalo de batalha, à mulher em pranto pareceu-lhe subitamente que o céu se havia tornado negro, mais negro que a noite, mais frio que o Inverno. Sons de grasnares distantes anunciavam a presença de negros corvos, que em nada ajudaram a esquecer a fatídica partida. E então desapareceu; não só no meio da bruma que se tinha começado a instalar, mas como se estivesse a entrar no mundo dos mortos; como se fosse a última vez que os amados se veriam. Muitas primaveras se passaram, muitos invernos lhes seguiram, e foi em quase total reclusão que a mulher procurou ocupar o seu tempo. Passava muitas horas no quarto onde dormia, recusando qualquer ajuda das suas aias para se compor ou para qualquer tipo de trabalho que quisesse efectuar. Havia um grande e belo espelho no quarto, maior que o tamanho de um homem, feito da mais pura e bela prata, e nele se havia trabalhado belas letras e gravuras, que o faziam reluzir de muitas formas diferentes. O espelho conseguia captar todo o quarto no seu reflexo, dando especial destaque à janela existente na parede oposta, dando para uma grande varanda. Longas horas passava em frente ao espelho, penteando os seus longos e negros cabelos de azeviche, a cada escovadela inúmeros pensamentos acerca do seu amado a percorriam. Era tão grande a intensidade dos seus pensamentos e maior ainda o seu amor pelo marido ausente , que o próprio espelho se tornou o seu confidente de todos os dias, um reflexo da sua própria alma. A bela mulher aos poucos sucumbiu à sua prória tristeza, deixando de comer, beber, mais nada a não ser se dedicar a ver o seu reflexo no espelho, projectando nele todo o seu ser, vendo nele todas as memórias que guardava do seu amado, doces e belos momentos passados na companhia do amor. E mais anos se passaram sem que a mulher envelhecesse; parecia estática no tempo, sem nenhuma imperfeição causada pelos longos anos de espera. Certo dia ela acordou com uma estranha sensação no peito, uma sensação que a dominou de medo. Estaria o seu amada morto ou moribundo? Não o sabia dizer, mas algo lhe disse que ele ainda vivia, e cedo afastou tais pensamentos da sua mente. Foi ao aproximar-se do espelho que soltou um grito de horror: a sua face estava mais enrugada, o seu cabelo com feixes finos de cabelos brancos, e perdera alguma da sua áurea beleza; era como se tivesse envelhecido de um dia para o outro. Horrorizada fitou-se novamente no espelho, tentando compreender o que se havia passado para se encontrar desta forma. Passara-se alguns dias, e com eles o tempo piorou drasticamente; o frio voltou a invadir os vales a norte e a paisagem encheu-se de branco. Reflexos alaranjados ornamentavam a estrutura prateada do belo espelho, provenientes da lareira do quarto. E em frente a ele lá continuava a mulher, agora mais franzina e envelhecida, escovando continuamente o seu longo cabelo. Ao entardecer, grasnares distantes voltaram a encher o ar, tal como na manhã em que o seu marido havia partido. Olhando pela janela, observou bandos negros e esvoaçantes sobrevoar a sua varanda; qual nuvem preta e viva, eles singravam demasiado perto dos vidros, quase entrando dentro do aposento. Um vento forte e gélido arremessou as portadas da janela para trás, abrindo-se de par em par; o fogo avivou-se intensamente, elevando labaredas e fagulhas em direcção ao tecto. A luz das velas apagou-se instantaneamente, tornando o quarto sombrio. Apenas o espelho reluzia no quarto. A mulher sentiu uma dor dilacerante no seu interior, nem uma dor fisica nem mental, uma dor que ela nunca havia sentido. Olhou então para o espelho e viu com horror o seu reflexo: velha, mirrada,lívida, uma mera sombra daquilo que havia sido. E perante os seus olhos continuava a envelhecer gradualmente. Começou a gritar, e foi em frente ao espelho que a verdade se apossou da sua alma: o seu amado havia morrido. Naquele instante tudo foi claro, compreensível e acima de tudo doloroso. Tudo o que poderia ter sido imaginação, receio ou apenas medo irracional tornara-se subitamente palpável. A realidade mostrada pelo espelho não era mais a sua de antigamente, mas a de alguém que tinha amado tão intensamente quanto seria possivel para um ser humano, e havia perdido tudo o que tinha de mais precioso na vida. O ténue reflexo do marido assombrou-se do espelho prateado, o seu rosto fúnebre fitava a sua mulher de um modo insondável, um rosto já sem qualquer resquício de vida, muito diferente do belo rosto que ostentava no passado. A sombra desapareceu da superfície espelhada e foi então que a mulher ficou finalmente só. Ele havia partido para sempre. Os gritos de horror passaram a gritos de desespero e mágoa, de ira e de tristeza, que nem mesmo o vento conseguiu abafar. Misturados com chuva e folhas mortas, inúmeros corvos irromperam pela janela, os seus gritos agoirentos espalhando-se pelo quarto; muitos pousaram no cimo do espelho, outros esvoaçavam por entre os cabelos negros e brancos da mulher gritante. E foi ai que o espelho começou a sangrar. Espesso e vermelho fluido irrompeu pelos bordos da estrutura de prata, manchando a imagem reflectida. Da mesma forma que os gritos aumentaram, assim o sangue aumentou, turvando tudo á sua passagem, misturando-se com a chuva e o vento. A antes bela mulher, prostrou-se pesadamente no chão, fria e sem vida. A alma que entregara ao seu belo espelho durante todos os anos que esperou pelo seu amado, haviam sido reclamados, e no lugar de um belo reflexo de outrora surgiu uma racha profunda no centro do espelho, a propria beleza do mesmo perdida, não sendo agora mais do que uma mera superfície cinzenta e baça. Nunca nínguem soube o que se havia passado naquela noite. Apenas descobriram o corpo na manhã seguinte, mais gélido que as próprias pedras. Grande tristeza espalhou-se por toda a casa e por todas as pessoas que haviam conhecido a mulher. Mais tarde chegou a notícia de que o marido também havia morrido na guerra, na mesma noite que a sua esposa. Estes estranhos acontecimentos acabaram por ser esquecidos, não passando mais do que meras histórias contadas à lareira nas noites frias e escuras, e mais tarde ainda em lendas. A vida destes dois amantes acabou dispersa nas redes do tempo, sendo o seu único marco nos dias vindouros, um velho e partido espelho, que agora não reflecte mais do que meras paredes cinzentas pejadas de teias de aranha, e uma janela onde a luz do sol não entra.